Acho válido hoje, especialmente, Dia do Publicitário – aliás, parabéns a todos os envolvidos -, falar dessa polêmica que tomou algum espaço na rede há alguns dias.

Eu gosto muito de ser um projetinho de publicitária. Sempre gostei mais dos intervalos que do resto da programação. Sempre li mais anúncios do que matérias. E sempre quis fazer aquilo. Claro que quando meu pai me perguntou o que eu queria fazer da vida, eu só poderia responder “eu quero ser publicitária“. E ponto. Mas não. Essa conversa na verdade estava só começando.
Semana passada entrou no ar o site Fuck Yeah Diretor de Criação. Alguns diretores de criação foram nomeados para receberem comentários de quem trabalha ou já trabalhou com eles, isto é, principalmente: redatores e diretores de arte. Se o seu diretor de criação não estivesse na lista, você poderia tranquilamente pedir a inclusão dele por meio de um formulário.

Fuck Yeah Diretores de Criação, quando ainda estava no ar...
A primeira vez que eu vi o site no ar, já pensei que o negócio ia dar merda. Pois veja você: qualquer chefe de qualquer setor do mundo que fosse colocado nesta mesma situação receberia de tudo em matéria de elogios e críticas. Afinal, o cara é chefe. A parte chata quase sempre sobra para ele. Mas, especialmente quando estamos falando de uma profissão em que “a subjetividade impera, a precocidade impera, a personalidade impera, a vaidade impera, a tensão impera”, segundo palavras do diretor de criação Marcelo Reis em carta publicada pelo CCSP, as coisas acabam tomando uma proporção diferente, um pouco maior, e muito indesejada. Não que você não possa criticar os seus ex/ atuais chefes.
Muito pelo contrário. A nossa profissão é uma profissão de críticas, que geralmente envolvem longas discussões que levam todo e qualquer tópico à exaustão. E se tem alguma coisa que você não possa dizer diretamente ao seu chefe, que você precise de um site sem moderação alguma para falar, talvez ele não deva mesmo ser o seu chefe. Ou, do mesmo jeito, talvez você não deva ser da equipe dele.

Site fora do ar, depois de alguns poucos dias...
Acho que a ideia como um todo tinha até a boa intenção de tornar os diretores de criação mais próximos do público, talvez. Para os publicitários saberem com quem trabalharão, se for o caso. Conhecer o perfil de cada um deles, o estilo de trabalho e coisas assim. Mas, infelizmente, ele acabou reproduzindo e endossando a pior parte da nossa profissão. A fofoca, os orgulhos feridos, a falta de humildade e por aí vai.
Uma pena. Quando eu escolhi essa profissão, eu não tinha a menor intenção de dizer para o meu pai que eu queria ser uma pessoa vaidosa, egocêntrica, que não sabe aceitar críticas e nem aprender com quem sabe mais. Continuo não tendo essa intenção, mas acho essa uma reflexão válida, especialmente hoje.

Feliz Dia do Publicitário.
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Para ajudar você a pensar, a carta do Marcelo Reis, ex-DM9DDB, publicada hoje (foi ontem, não?) no site do Clube de Criação de São Paulo:
Diretores de criação de merda. Anônimos idem.
Enquanto aguardava o embarque no aeroporto de Congonhas, na tarde desta quinta-feira (27/01/2011), recebi inúmeros telefonemas de amigos surpreendidos com um site que citava e esculachava todos os diretores de criação do mercado. Me explicaram tudo por alto, me parabelizaram pela minha performance neutra, mas só tive a oportunidade de assistir ao show de horror proporcionado por nós mesmos no início da noite.
Saí para jantar com minha família aliviado por não ser mau caráter, babaca, viado, bunda mole, puxa saco, filha da puta, ter mau cheiro, ser vendido ou minha mãe estar na zona cobrando barato. Ufa, me senti realizado por não ser mais um destes personagens monstruosos da propaganda brasileira ou, se for, ainda não ter sido descoberto pelos poderosos e covardes anônimos.
Que pena. Apenas três meses fora das agências e essa é a motivação que recebo para voltar.
Bem, mais ou menos meia-noite, hora em que volto para casa, me sinto na obrigação de escrever, mesmo que na sexta decida não mandar esta carta para o CCSP. Afinal, agora, eu estou me sentindo mais merda que todos os supostos merdas da diretoria ofendidos pelos próprios funcionários. Pois é, no jantar estava feliz por não ter sido humilhado e não precisar me envolver. Que patético sou eu.
Onde queremos chegar com tudo isso? Como conseguiremos nos impor perante nossos clientes quando nos expomos entre nós desta forma? Que grande retrocesso na nossa carreira, já marcada por problemas tão inusitados, estamos gerando?
Se estamos tão insatisfeitos assim com nossos chefes, temos total liberdade de pedir demissão e ficar em casa produzindo nossos próprios roteiros, nossos curtas, nossas pinturas, nossos longas, nossos freelas ou qualquer outra coisa brilhante que os incompetentes diretores de criação não conseguem entender e perceber como genial.
Que tal deixá-los sem mão de obra disponível? Temos sim o direito e a obrigação de enfrentar líderes considerados problemáticos, mas essa forma foi a pior possível para a gente, chefes ou não. Somos redatores e diretores de arte, podemos fazê-lo com mais elegância e persuasão.
Sim, trabalhamos numa profissão onde a subjetividade impera, a precocidade impera, a personalidade impera, a vaidade impera, a tensão impera. Mas isso era para ser um valor, não um defeito. Sim, temos chefes talentosos mal resolvidos como seres humanos e temos chefes medíocres bem resolvidos no lido com outras pessoas. E temos pessoas do bem nos dois aspectos também. Essas variações fazem parte do nosso negócio (que não é arte), desde que nunca passem do limite do respeito, é claro.
Talvez eu, você, todos nós um dia sejamos este chefe imperfeito. Mas vamos tentar sê-lo com o mínimo de dignidade. A mesma dignidade que não tivemos quando colocamos no ar e demos audiência a um blog vulgar como este, ou como tantos outros que já surgiram no passado, contando histórias pessoais que só dizem respeito aos seus próprios personagens.
Amo a mecânica desta profissão, o conflito saudável, adoro ralar e fritar a cabeça para ter uma ideia que preste e também me empolgo bastante vendo os criativos serem melhores do que eu quando criam, sem hipocrisia. Mas é só propaganda. Vamos tentar ser mais leves e felizes? Quero voltar mais animado para o mercado e não mais desanimado do que saí.
Fiquei enojado com tudo e até comigo mesmo. Escrevo não para me defender, nem para defender qualquer um (cada qual com seus problemas verdadeiros ou inventados), mas para defender todos nós. Agindo assim, como adolescentes revoltados, em quem você acha que o cliente vai confiar mais? Na gente ou no cara da agência, sentado ao nosso ao lado, que parece sério e veste terno e gravata? Estamos armando a arapuca para nós mesmos, como se diz aqui em Minas. Vamos dizer eternamente “sim senhor” para alguém que não sabe criar.
Na minha modesta opinião, quem faz nosso trabalho ser brilhante não somos NÓS, os diretores de criação. Até porque para exercer bem a função, mais importante que ter exagerado talento criativo, o que os diretores de criação devem ter de sobra é critério bom e capacidade de gerenciar e inspirar pessoas.
No fundo, somos NÓS, redatores e diretores de arte, que fazemos a roda girar e entregamos horas preciosas e angustiantes da vida em busca de uma única ideia boa (não estou falando de ideia para festival, muito menos de leões, que por sinal eu, incompetentemente, só tenho um, graças a Deus), eficiente, divertida e vendedora.
Se o exemplo de maturidade e criatividade que nós somos capazes de produzir para colegas, clientes e fornecedores é um mísero site medíocre, malfeito e pessimamente redigido em seu conteúdo colaborativo, aí sim estamos realmente fodidos. Os merdas somos todos nós, sem exceção.
Marcelo Reis